Na teleconferência de resultados de 28 de outubro, a C.H. Robinson, uma das maiores intermediárias de frete dos Estados Unidos, apresentou um número que parece resumir a promessa da inteligência artificial nas empresas. Na sua principal divisão, a de transporte rodoviário na América do Norte (NAST), os embarques por pessoa por dia cresceram mais de 15% em um ano e mais de 65% desde o fim de 2022. Na mesma chamada, a empresa disse gastar menos de US$ 2 milhões por ano com tokens de modelos de linguagem.
A companhia credita os resultados ao que chama de Lean AI, a combinação de gestão enxuta com agentes de IA desenvolvidos internamente. É tentador concluir que a IA multiplicou a produtividade da operação. Os dados que a própria empresa publica mostram um ganho real de produtividade, mas não permitem dizer quanto dele vem da IA.
Este texto usa o caso para mostrar, passo a passo, como avaliar uma alegação de produtividade antes de atribuí-la à tecnologia. Ao longo da matéria, separamos dados oficiais (divulgados pela empresa em releases e teleconferências), cálculos da The Prompt (feitos a partir desses dados) e interpretações.
Passo 1: entender o que a métrica mede
"Embarques por pessoa por dia" é uma razão. Há um numerador (embarques), um denominador (pessoas) e uma unidade de tempo (dia). A razão sobe quando os embarques aumentam, quando o número de pessoas diminui, ou quando as duas coisas acontecem ao mesmo tempo.
A C.H. Robinson usa esse indicador desde 2023, mas não publica a fórmula. Não está claro se "pessoa" inclui todo o quadro da divisão ou só funções operacionais, nem como embarques e dias são contados. Na teleconferência, o presidente da NAST, Michael Castagnetto, disse apenas que a métrica é medida em toda a organização da divisão.
Sem a fórmula oficial, é possível fazer uma aproximação com o que a empresa divulga todo trimestre: o quadro médio de funcionários de cada divisão.
Passo 2: olhar o denominador
Dados oficiais. No quarto trimestre de 2022, a NAST tinha em média 7.251 funcionários. No terceiro trimestre de 2026, eram 4.597.
Cálculo da The Prompt. É uma redução de 36,6% no quadro médio da divisão. Se o volume de embarques tivesse ficado exatamente igual, só essa redução faria o indicador subir cerca de 58%, porque 7.251 ÷ 4.597 = 1,577. Para que o aumento chegasse a 65%, o volume de embarques precisaria ter crescido cerca de 4,6% no período, porque 1,65 × 4.597 ÷ 7.251 ≈ 1,046.
Um cuidado na leitura: os efeitos se multiplicam, não se somam. Não é correto dizer que o quadro menor responde por "58 dos 65 pontos" do ganho. A forma precisa é esta: um quadro 36,6% menor, combinado com cerca de 4,6% mais embarques, resulta em um indicador 65% maior. A maior parte da variação acompanha a queda do denominador.
O crescimento de volume implícito na conta é compatível com o que a empresa relata. Segundo o release do terceiro trimestre, o volume da NAST cresceu 3,5% sobre o mesmo período de 2025, enquanto o índice de embarques Cass, referência do setor, caiu 0,3%. Foi o 14º trimestre seguido em que a divisão cresceu acima desse índice.
Limite do cálculo. A aproximação compara o quadro médio de um trimestre de 2022 com o de um trimestre de 2026 e usa toda a divisão como denominador. Se a empresa calcula a métrica de outra forma, o resultado exato muda. A conclusão central, de que o indicador cresce sobretudo porque o quadro encolheu, depende de a métrica oficial usar um denominador parecido.
Nada disso torna o número falso. Movimentar volume parecido ou maior com cerca de um terço a menos de pessoas é, de fato, um ganho de produtividade. A pergunta que importa é o que permitiu essa redução.
Passo 3: reconstruir a linha do tempo
Se a IA tivesse chegado depois da maior parte do ganho, seria um indício de que outras causas pesaram mais. Se tivesse chegado antes e o ganho viesse logo em seguida, seria um indício a favor dela. Neste caso, a cronologia não favorece nenhuma das leituras, porque as mudanças começaram juntas.
- Novembro de 2022 e maio de 2023: a empresa corta 650 e depois 300 vagas, segundo a imprensa especializada, para reduzir custos.
- 2023: sob o novo CEO, Dave Bozeman, a empresa adota um modelo de gestão enxuta. Na teleconferência de 1º de novembro de 2023, ele informa alta de 18% em embarques por pessoa por dia no ano, contra meta de 15%, e atribui o resultado ao esforço para enxugar processos e remover etapas manuais.
- Setembro de 2023: a IA generativa já opera na cotação. Na mesma teleconferência, o então diretor de operações, Arun Rajan, disse que a empresa usava IA generativa para preencher lacunas em pedidos incompletos e desestruturados, reduzindo o tempo de uma cotação de cerca de cinco minutos para menos de um, e que mais de 10 mil cotações haviam sido geradas por um agente de IA na última semana do trimestre.
- Maio de 2024: a empresa diz receber cerca de 11 mil e-mails de pedido de preço por dia e responder cerca de 2 mil com IA, segundo a imprensa especializada.
- Junho a outubro de 2024: o agente que transforma pedidos recebidos por e-mail em ordens de transporte passa a processar milhares de pedidos por dia. Em outubro, a empresa diz automatizar mais de 10 mil transações por dia.
- Janeiro de 2025: o release anual informa produtividade composta de "30% ou mais" em 2023 e 2024, na NAST e no agenciamento internacional.
- Julho e outubro de 2026: a empresa fala em "mais de 60%" e depois em "mais de 65%" desde o fim de 2022.
Cálculo da The Prompt. O quadro médio da NAST caiu em todos os períodos: 15,8% entre o quarto trimestre de 2022 e o de 2023; 12,4% entre o quarto trimestre de 2023 e o de 2024; e 14,0% entre o quarto trimestre de 2024 e o terceiro de 2026.
Interpretação. Cortes de pessoal, gestão enxuta e IA avançaram juntos desde 2023. Mesmo uma sequência mais limpa não provaria causalidade; aqui, nem a sequência ajuda a separar as causas.
A própria empresa não faz essa separação. O release de janeiro de 2025 atribui os "30% ou mais" de 2023 e 2024 ao modelo operacional. Um texto institucional publicado no site da empresa em junho de 2025 credita aos agentes de IA um "aumento de 30% de produtividade desde 2023". Desde então, a marca Lean AI abrange tudo. Como estratégia, faz sentido, porque processo e tecnologia se reforçam. Como evidência, impede saber quanto cada parte contribuiu.
Passo 4: procurar métricas próprias da IA
O que a IA faz na operação está mais bem documentado do que o efeito dela no indicador geral. Os comunicados da empresa descrevem a cotação antes e depois.
Antes, segundo comunicado de outubro de 2024, clientes conectados por sistema já recebiam respostas automáticas, mas pedidos enviados por e-mail esperavam na fila de um funcionário. Um pedido de transporte por e-mail podia levar até quatro horas para ser atendido, e a digitação dos dados de cada carga levava em média sete minutos.
Depois, segundo a empresa, a IA identifica que o e-mail é um pedido de cotação e um agente devolve um preço específico para aquele cliente em cerca de 32 segundos. Em outubro de 2024, eram 2.600 cotações por dia; em abril de 2025, a empresa dizia ter passado de 1 milhão de cotações feitas por IA. No frete marítimo e aéreo, a empresa descreveu em outubro de 2026 vários agentes trabalhando em conjunto: um interpreta o pedido (por exemplo, a qual de dois portos de Xangai o cliente se refere), outros consultam tarifas de terminais e leem avisos de taxas. Segundo a companhia, a cotação marítima caiu de dois a três dias para dois a três minutos.
O exemplo mais detalhado é o das coletas perdidas no transporte fracionado. Segundo a empresa, equipes passavam mais da metade do dia ligando para transportadoras e consultando sites. Hoje, um agente faz as ligações e outro decide o próximo passo. A companhia diz que 95% dessas verificações foram automatizadas, com mais de 350 horas de trabalho manual economizadas por dia.
Sobre o papel das pessoas, a empresa diz que os agentes operam com "responsabilidades específicas, limites definidos e supervisão humana", e que os ganhos de produtividade vieram de funções operacionais, com o quadro voltado ao cliente mantido ou ampliado em algumas áreas. A empresa não divulga a precisão das cotações automáticas, a parcela revisada por pessoas nem a comparação de margem com cotações feitas por funcionários.
Interpretação. Esses números mostram onde a IA assumiu trabalho que antes era manual. Eles não dizem quanto desse trabalho se converteu em redução de quadro, nem quanto pesa nos 65%.
Passo 5: abrir a conta dos custos
Dado oficial. Na teleconferência, Arun Rajan, hoje diretor de estratégia e inovação, disse que o uso de tokens cresceu mais de 40 vezes em dois anos e que o custo anualizado de tokens ainda é inferior a US$ 2 milhões. A empresa escolhe o modelo de linguagem conforme a tarefa e o custo.
O valor se refere ao consumo dos modelos. Outros custos da transformação aparecem nos documentos da empresa. Eles têm naturezas diferentes e não devem ser somados:
- Equipe de desenvolvimento: a empresa diz ter mais de 450 engenheiros e cientistas de dados próprios. O custo dessa equipe não é divulgado.
- Investimentos: a previsão para 2026 é de US$ 65 milhões a US$ 75 milhões. O release não informa quanto disso se refere à IA.
- Software próprio: a amortização de software desenvolvido internamente fica fora do "lucro bruto ajustado", a base que a empresa usa para calcular suas margens ajustadas.
- Reestruturação: de janeiro a setembro de 2026, a empresa registrou US$ 43,8 milhões em custos de reestruturação, dos quais US$ 30,4 milhões em indenizações e outras despesas ligadas à redução de quadro. É um custo de transição, não recorrente.
Há ainda um dado que contraria a intuição. No terceiro trimestre de 2026, a despesa com pessoal foi de US$ 360,3 milhões, 3,1% acima do mesmo período de 2025, embora o quadro médio da empresa tenha caído 10,4%. Na teleconferência, a empresa atribuiu o aumento sobretudo à remuneração variável mais alta.
Interpretação. O dado de US$ 2 milhões é útil, porque mostra que, nesta escala, o custo de uso dos modelos é pequeno. Mas ele não é o custo da IA. Com o que é público, não é possível calcular o retorno do investimento.
O método: sete perguntas para avaliar uma alegação de produtividade com IA
O roteiro abaixo é da The Prompt, não da C.H. Robinson. Serve para anúncios de fornecedores, de concorrentes ou para a avaliação de um projeto interno.
- Qual é a fórmula? Identifique numerador, denominador e período. Se a definição não for pública, trate o número como indicativo.
- Qual é a base de comparação? Verifique o ponto de partida. Um começo em momento ruim faz qualquer ganho parecer maior.
- O que aconteceu com o denominador? Procure o quadro de pessoal no mesmo período. Se ele caiu muito, refaça a conta com volume constante e veja quanto da variação sobra para outras explicações.
- O que mais mudou ao mesmo tempo? Liste cortes, programas de eficiência, troca de gestão, automação anterior, aquisições e o ciclo do mercado. Se tudo começou junto, atribuir o ganho à IA é uma hipótese, não um resultado.
- A IA tem métricas próprias? Procure números por tarefa, como tempo, volume e erro, e veja se eles se conectam ao indicador geral. Volume de tarefas automatizadas não é o mesmo que ganho de produtividade.
- Qual é o custo total? Separe o custo de uso dos modelos, o custo de construir e manter (pessoas, software, infraestrutura) e o custo de transição (reestruturação). Avalie cada um sem somar coisas de natureza diferente.
- Quem verificou? Distinga documentos oficiais, falas de executivos e análises independentes.
Para quem vai medir o próprio projeto, a lógica se inverte. Registre o indicador antes de começar, escreva a fórmula, acompanhe as outras mudanças em curso e anote erros e revisões humanas desde o primeiro dia. Sem isso, nenhum ganho poderá ser atribuído depois.
O que os dados permitem concluir
Com as evidências públicas, é possível afirmar que:
- a NAST movimenta volume parecido ou maior com cerca de um terço a menos de funcionários do que no fim de 2022 (dados oficiais e cálculo da The Prompt);
- a empresa usa IA generativa em tarefas de alto volume desde 2023, com tempos de resposta muito menores, segundo ela própria;
- o custo de tokens divulgado é baixo diante da escala da operação.
Não é possível afirmar, com dados públicos:
- quanto dos 65% se deve à IA;
- qual seria a produtividade apenas com gestão enxuta e cortes, sem os agentes;
- se a qualidade do serviço mudou;
- qual é o custo total da IA e o retorno do investimento.
Isso não significa que a IA não tenha gerado ganhos. Significa que a parcela atribuível a ela não está demonstrada nos dados divulgados.
O que uma empresa brasileira pode aproveitar
A The Prompt não encontrou um caso brasileiro comparável com documentação pública. Os pontos abaixo são interpretações, não comparações.
- Comece pelo processo. A C.H. Robinson diz ter mapeado o ciclo da cotação ao pagamento antes de decidir onde usar IA. Os ganhos mais visíveis vieram de tarefas em que o trabalho esperava numa fila de e-mails.
- Priorize tarefas de alto volume com entradas desorganizadas. Cotações, pedidos e agendamentos que chegam por e-mail ou telefone foram os primeiros alvos. Em cada operação brasileira, vale mapear por quais canais esses pedidos de fato chegam antes de escolher onde automatizar.
- Meça antes de começar. Sem linha de base e fórmula definida, não há como atribuir o resultado depois.
- Não presuma resultados equivalentes. A empresa tem centenas de engenheiros próprios e anos de dados de preço. Uma operação menor pode ganhar em tarefas específicas sem ver o mesmo efeito na produtividade total.
- Acompanhe o efeito sobre as pessoas. Em janeiro de 2026, o CEO disse que a empresa não repõe algumas vagas de entrada, segundo a FreightWaves. É nesse ponto que a produtividade de uma empresa encontra o mercado de trabalho.
Esta matéria foi produzida pela Redação The Prompt com auxílio de inteligência artificial na pesquisa e na redação.
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